Cibercultura e suas interfaces com a Teoria Ator-rede

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A obra de André Lemos, aborda num contexto geral a Cibercultura como elemento de uma cultura contemporânea, a qual promove uma reconfiguração das práticas comunicacionais, políticas, relações sociais e as transformações culturais sendo todas estas, conseqüência de uma sociedade influenciada pela tecnologia digital.

Segundo Lemos (2003) no ensaio “Cibercultura.Alguns pontos para compreender a nossa época”[1], esta faz parte de um novo formato de sociedade denominada por Castells (1996) de “sociedade da informação”, na qual  “ao atingir a esfera da comunicação, as tecnologias agem, como toda mídia, liberando-nos dos diversos constrangimentos espaços-temporais”, ou seja, há maior sociabilidade da informação entre as diversas esferas social-midiática.

Um tema abordado pelo autor é a percepção do espaço temporal que o indivíduo adquire na cibercultura. Diante do avanço tecnológico, é cada vez mais instantânea a dimensão do tempo real e cabe ao sujeito definir os usos que fará da internet no momento em que estiver utilizando a mesma. Lemos (2003) afirma que “o clique generalizado permite a potência da ação imediata, o conhecimento simultâneo e complexo, a participação ativa nos diversos fóruns sociais” o que legitima essa reconfiguração dos usos da internet para novas formas de comunicação, agora em rede.

 Email, chats, weblogs, jogos eletrônicos, jornalismo online, TVs online, revistas, entre outros, são diversos instrumentos de comunicação que compõem os ambientes virtuais e oferecem possibilidades infinitas e simultâneas aos indivíduos de partilhar conhecimento e informação. Diante disto, Lemos (2003) trata a internet como uma incubadora, no seu sentido legítimo, e descarta a imagem de mídia de massa, tendo em vista que a mesma não atinge estas, mas sim públicos específicos e autônomos.

 A diversidade de elementos que encontramos na internet nos proporciona novas formas de relacionamento na sociedade. Trata-se de relações mediadas, nas quais o indivíduo pode exercer diversos papéis e interagir com outros buscando singularidades, de acordo com o contexto ao qual se apresenta e com os objetivos que possuem em comum.  A linguagem, as performances, o conteúdo, etc. passam a ser uma nova forma de expressar a arte de si, de dar novas formas ao corpo, de exercer a democracia livremente e até mesmo de reinventar os espaços públicos.

Diante destas reflexões, o autor expõe três princípios que devem ser considerados elementares para o entendimento da cibercultura. O primeiro deles diz respeito à “Liberação do pólo de emissão”, no qual as novas formas de relacionamento e de socialização da informação podem ser feita por qualquer emissor e por qualquer meio ligado à internet.

O segundo princípio afirma que para que haja essa liberação os sujeitos devem estar conectados, pois só assim há possibilidade de trocar informação de forma “autônoma e independente”. A partir daí, as relações mediadas passam a reconfigurar (terceiro princípio) as práticas tradicionais de comunicação, informação e relacionamentos que até então exigiam uma interface presencial, com espaço e tempo pré-determinado.

É neste contexto que a Cibercultura ocupa novos espaços e promove novas formas de interatividade, sem substituir as interfaces existentes, pelo contrário, ela reafirma a cada instante que o mundo virtual nada mais é do que o espelho da vida real. Entretanto, a criticidade não deve ser esquecida diante deste processo, afinal existem várias lacunas que interferem nos usos e resultados das ferramentas de comunicação, na produção de conteúdo e nas relações mediadas existentes neste universo.

Cibercultura e a Teoria Ator-rede

“Como diz Latour: ‘essência é existência e existência é a ação’. No fundo, a discussão sobre e as mídias sociais e telefones celulares fizeram a revolução se perder na polarização entre sujeitos (que têm uma essência – ser o mediador e senhor da agência) e os objetos (que têm uma essência – serem apenas intermediários, ‘ferramentas’, ‘instrumentos’, ‘meios’).”[2]

Em pesquisas recentes sobre a teoria da materialidade, Dr.André Lemos visa explicar e aplicar o conceito da Teoria Ator-Rede (TAR) desenvolvida por outros grandes autores, hoje mais difundida pelo sociólogo Bruno Latour, no contexto da cibercultura, a partir do entendimento de que o homem por si só não faz o fluxo comunicacional, ele depende do processo de interação e comunicação homem-máquina, assim como os novos recursos tecnológicos contribuem para que a mobilidade faça parte deste processo informacional e comunicacional.

Em seu texto, o autor analisa a aplicação da teoria ator-rede a partir das novas revoluções que aconteceram recentemente nos países do norte da África e do Oriente médio. Ele diz que as exposições dos fatos nas mídias sociais (facebook, twitter, Orkut, blogs) só foram possíveis a partir da interação homem-máquina, no qual se tornaram “actantes” de um processo ao difundi-lo para todo o mundo conectado, ou seja, “actantes humanos e não-humanos assumem determinados papéis a depender das associações que se constituem em determinada ação.”

Não é fácil entender essa argumentação a partir do momento que fomos educados para entender e praticar o fluxo de comunicação entre pessoas. Entretanto, numa sociedade em que cada vez mais estamos ligados aos objetos, tais como smarth phones, tablets, etc. as interfaces podem acontecer em qualquer lugar, assim como a interatividade acontece a partir do momento da conexão por meio do uso da ferramenta, ou seja, homem-homem, homem-máquina, máquina-máquina passando a constituir uma rede de atores que contribuirá, cada um de uma forma, com os resultados almejados. Não se pode negar os fatos, como afirma Latour “o social não é a explicação das associações, como aprendemos na escola. Ele é o resultado dessas associações.”

Passamos a compreender melhor a TAR a partir do momento em que entendemos que há um hibridismo implícito nas ações do sujeito, ou seja, se retirarmos os objetos como um smarth phone, por exemplo, não poderemos ter uma interface comunicacional, não teremos ação. Afinal, as revoluções aconteceram porque existem ferramentas, objetos com tecnologia desenvolvida, conectado a uma rede, que permite uma liberação do pólo emissor da mensagem e, a partir de uma conexão em rede há possibilidades de uma reconfiguração dos fatos, das relações, por meio de ações e associações de seus actantes.

É neste contexto de ações, associações e rede de atores que a Cibercultura reafirma seu processo de reconfiguração nas mais diversas esferas das sociedades e mostra que o processo de comunicação vai muito além das interfaces humanas e, passar a reconhecer a interação através de actantes que promovem resultados e alteram democracias, espaços públicos,etc.




[1] LEMOS, André; CUNHA, Paulo (org.). Olhares sobre a Cibercultura. Porto Alegre: Sulina, 2003.p.11-23.
[2] LEMOS, André. Things (and People) are the tools of revolution!. http://andrelemos.info/2010/02/things-and-people-are-the-tools-of-revolution/

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